- Por Mirella Ramos / Redação da Central do Timão
De uma carreira construída em diferentes países ao sonho de vestir a camisa do clube do coração. Em entrevista exclusiva à Central do Timão, Andressa Alves abriu o jogo sobre a escolha de defender o Corinthians, relembrou a emoção ao receber a confirmação do acerto e contou como a experiência adquirida no exterior tem influenciado sua segunda temporada no Parque São Jorge.
A camisa 8 também falou sobre a evolução do futebol feminino, a disputa interna no elenco, o retorno após lesão e a expectativa para a reta decisiva de 2026. O próximo desafio das Brabas será justamente um mata-mata: o Corinthians enfrenta o Bahia nesta terça-feira (15), às 21h30 (de Brasília), na Arena Fonte Nova, pela ida da semifinal do Campeonato Brasileiro Feminino.

Aos 33 anos, Andressa chegou ao Timão no início de 2025 após construir uma longa trajetória fora do país, com passagens por Montpellier, Barcelona, Roma e Houston Dash. Antes da experiência internacional, também havia defendido equipes brasileiras, entre elas Juventus, Ferroviária e São José.
Apesar dos anos longe do Brasil, havia um destino que permanecia nos planos da jogadora. Andressa contou à reportagem que já desejava atuar pelo Corinthians e, quando decidiu retornar ao país, não cogitou vestir outra camisa.
“Eu passei muito tempo lá fora. Foram quase 10 anos, se eu não me engano. E aí eu sempre tive o desejo de jogar pelo Corinthians, mas a oportunidade não surgia e eu continuava jogando lá fora porque eu tinha alguns objetivos pessoais: jogar a Champions, continuar na Europa. E aí teve um momento que eu decidi e falei: ‘Não, agora é o momento certo de voltar para o Brasil.’ E aí o único time que eu falei que eu jogaria era o Corinthians aqui no Brasil. Então, se o Corinthians não me quisesse, eu não sei o que eu ia fazer. Eu não sei para onde eu ia. Acho que eu ia continuar lá fora, provavelmente. Então, foi a escolha mais fácil da minha vida. Vim para o Brasil e vim para o Coringão.”
Experiência internacional e adaptação ao Corinthians
A passagem pelo Barcelona colocou Andressa em um capítulo importante da carreira. A brasileira disputou uma final da Liga dos Campeões diante do Lyon e se tornou uma das atletas do país a abrir espaço no cenário europeu.
Ao recordar aquele período, a camisa 8 destacou não apenas a experiência pessoal, mas o caminho que suas conquistas ajudaram a construir para outras brasileiras. A jogadora também comparou as sensações vividas no futebol europeu com a intensidade emocional encontrada no Corinthians.
“Acho que jogar uma final de Champions é muito especial. Joguei com o Barcelona, joguei contra o Lyon. O Lyon era aquela máquina. E você poder abrir porta para as outras brasileiras, como eu abri para a Geis, e a Fabi também jogou comigo. A Caroline agora está no Barça. Então, o que você faz lá fora e deixa de legado, isso também abre porta para as outras brasileiras, e a experiência é única. Você viveu uma Champions. É diferente de você viver uma final de Libertadores. Para mim, foi muito diferente porque é o coração, então muda muito. O ano passado, quando eu cheguei, eu senti muito porque eu era muito coração.
Às vezes, dentro de campo, você precisa ser um pouco mais racional, mas, para mim, era muito difícil porque foi o meu primeiro ano. Então, foram muitas coisas, muitos sentimentos, e essa segunda temporada eu estou mais solta, estou mais leve, já estou entendendo bem como está o Campeonato Brasileiro porque eu fiquei muitos anos sem jogar no Brasil. Então, acho que essa temporada eu estou conseguindo mostrar por que eu vim para o Coringão.”
Andressa rapidamente transformou o desejo de jogar pelo Timão em conquistas. Em sua primeira temporada, participou dos títulos do Campeonato Brasileiro e da Libertadores de 2025. Desde que chegou ao Parque São Jorge, soma 62 partidas, 11 gols e 18 assistências.
‘Eu vou jogar no meu time do coração’
Durante a entrevista, Andressa também revelou como recebeu a notícia de que finalmente seria jogadora do Corinthians. A confirmação aconteceu enquanto estava no carro com a esposa, Fran. Uma ligação da empresária Tati Braga foi suficiente para transformar o momento em uma das lembranças mais emocionantes da carreira.
“Vou falar o que aconteceu realmente. Eu estava no carro com a minha esposa, a Fran, e a minha empresária, a Tati Braga, me ligou e falou assim: ‘Deu certo.’ Aí eu fiquei assim, parada, e só comecei a chorar. Não tinha reação. Só comecei a chorar. Abracei, a Fran estacionou o carro, abracei ela e falei: ‘Meu sonho está realizado. Eu vou jogar no meu time do coração.’”
A relação com a arquibancada ganhou ainda mais significado durante as decisões disputadas pelo Corinthians. Andressa relembrou especialmente uma cena da final do ano passado, quando se viu dentro de campo acompanhando um cântico que, anteriormente, entoava como torcedora.
Para ela, conhecer o sentimento de quem está nas arquibancadas também aumenta a responsabilidade de representar o clube dentro das quatro linhas.
“Eu acho que o que aconteceu o ano passado, na final, foi histórico para mim e eu jamais vou esquecer. Eu tenho aquela imagem na minha cabeça, assim, muito clara: a gente entrando e depois começando o ‘Pô, Pô’, e eu pensando que eu estava lá fazendo o ‘Pô, Pô’ e hoje eu estou aqui. Então, eu tenho que representar esse bando de loucos e eu sei o sentimento que é ser torcedor, o que o torcedor gosta que o jogador ou a jogadora entregue dentro de campo. Então, eu sempre dou meu máximo, mostrar mesmo que eu estou tentando representar o torcedor e que, da minha parte, nunca vai faltar raça, porque eu sei que aqui no Corinthians é inegociável.”
Andressa explica evolução na segunda temporada
A adaptação emocional também aparece como uma das explicações para o desempenho da jogadora em 2026. Nesta temporada, Andressa soma quatro gols e oito assistências em 22 partidas.
Depois de realizar alguns dos sonhos que carregava antes da chegada ao clube, a camisa 8 acredita ter encontrado maior equilíbrio entre a emoção de representar o Corinthians e a tomada de decisões dentro de campo.
“Como eu te falei, o ano passado foi tudo novo para mim, então o meu coração estava muito acelerado em todo jogo. Às vezes, pensava menos. Aí, para essa segunda temporada, eu já realizei meus sonhos, já fui campeã, joguei na Neo Química Arena, então vou usar mais a cabeça, mas, claro, sem deixar o coração, que isso é muito importante, vestir essa camisa. E as coisas estão acontecendo, estou conseguindo jogar bem, estou conseguindo ajudar o Corinthians a somar pontos. A gente tem um grande elenco, o time é muito bom. Quem entra, quem está titular, quem está no banco, então isso também ajuda a gente a mostrar melhor o nosso futebol, jogar com Zanotti, jogar com Jaque.”
A quantidade de opções disponíveis também aumenta a concorrência por espaço. Andressa, porém, enxerga a disputa interna de maneira positiva, especialmente diante de um calendário que exige diferentes formações ao longo da temporada.
“Muito boa, muito saudável. Isso é muito importante para ter tantos campeonatos que a gente disputa no ano. A gente precisa de todo mundo e o nosso elenco é muito bom.”
Crescimento do futebol feminino passa pelo mercado
Com experiência em alguns dos principais centros do futebol feminino mundial, Andressa também acompanhou de perto a transformação do mercado da modalidade. Na visão da atleta, negociações envolvendo valores cada vez maiores mostram uma realidade muito diferente daquela encontrada pelas jogadoras há cerca de uma década.
Ao abordar as transferências recentes de jovens atletas brasileiras, a corinthiana ressaltou que o crescimento esportivo também passou a produzir retorno financeiro aos clubes.
“Sim, acho que o futebol feminino chegou num patamar que virou muito negócio. Você consegue fazer grandes vendas, como a Tarsi foi agora, como a Teles também, e pensar nisso há 10 anos atrás era impossível. Você saía de graça de um time para o outro. Então, você vê que o futebol feminino está crescendo e que também dá um retorno legal.”
Retorno acontece em momento decisivo da temporada
Andressa chega à reta final do ano após precisar interromper sua sequência por um problema muscular na região posterior da coxa. A jogadora ficou aproximadamente 20 dias afastada e perdeu compromissos do Corinthians, mas voltou a ganhar minutos justamente durante as quartas de final do Brasileiro.
Na última partida das Brabas, disputada em 7 de setembro, ela saiu do banco na vitória por 3 x 1 sobre o Cruzeiro, no Canindé. O resultado confirmou a classificação corinthiana para a semifinal após o triunfo por 1 x 0 no confronto de ida.
Agora, com o Bahia pela frente, Andressa reconhece o grau de dificuldade da partida na Arena Fonte Nova e prevê a necessidade de uma atuação próxima da perfeição para o Corinthians construir uma vantagem antes da volta.
“Eu tive essa lesão na posterior, chatinha, e eu fiquei uns 20 dias parada e acabei perdendo alguns jogos ainda da fase de grupo do Brasileiro. Mas é o tempo de chegar agora no mata-mata. Consegui ter alguns minutos já contra o Cruzeiro e estou feliz de poder ajudar. E agora é tudo ou nada. A gente sabe que jogar, a gente tem muito respeito pelo Bahia, muito mesmo. A gente sabe que o jogo lá vai ser muito difícil e que a gente tem que fazer uma partida praticamente impecável para poder sair com um bom resultado de lá.”
O primeiro encontro da semifinal acontece nesta terça-feira (15), às 21h30, na Fonte Nova. A decisão da vaga será na segunda-feira seguinte (21), também às 21h30, na Neo Química Arena, cenário que Andressa conhece tanto pela perspectiva de quem está em campo quanto de quem cresceu torcendo pelo Corinthians.