Passados pouco mais de um mês desde que a biometria facial foi implementada na Neo Química Arena, os primeiros números relativos ao público e renda nos jogos do Corinthians começaram a ser analisados pela diretoria interina. Os dados recolhidos revelam um cenário de forte aumento do uso do Fiel Torcedor para comercialização dos ingressos, além da detecção de diversos gargalos na logística, que permitiam a prática desenfreada do cambismo em Itaquera.
Mais do que isso: os números levantados expõem contradições relevantes de ex-membros da gestão Augusto Melo à polícia no âmbito das investigações do inquérito policial que apurou denúncias de irregularidades na plataforma e de vendas irregulares de ingressos. A Central do Timão obteve acesso aos documentos da apuração policial e analisou, em especial, o depoimento de Lúcio Blanco, ex-administrador da Neo Química Arena.

As oitivas do inquérito, bem como a investigação em geral, já haviam sido objeto de reportagem na Central do Timão em meados de abril. No entanto, a análise dos dados do Fiel Torcedor pós-biometria facial, quando confrontadas com as afirmações de Blanco às autoridades, expõem a disparidade entre o discurso e a prática na antiga realidade da gestão da plataforma quando a tecnologia ainda não havia sido implementada.
Lúcio Blanco prestou depoimento em 19 de março à Polícia Civil, iniciando sua fala esclarecendo que exerceu a função de administrador da Neo Química Arena por quase quatro anos, já tendo trabalhado antes no local. Afirmou ainda que o banco de dados utilizado era administrado pelo Departamento de Tecnologia junto com a OneFan, mantenedora do FT, e ele não possuía controle sobre logins do setor responsável por liberar, vender ou trocar ingressos, direta ou indiretamente.
No entanto, no mesmo depoimento, Blanco alegou que havia um grupo de ingressos variáveis, cuja disponibilidade e distribuição era definida por um colegiado integrado por ele próprio, o então diretor administrativo Marcelo Mariano, o então diretor de relações institucionais Thales Cezar de Oliveira, e outro diretor não identificado, cujas decisões eram submetidas à diretoria, que normalmente as aprovava.
Blanco explicou que a distribuição dos 49 mil ingressos disponíveis ocorria de forma segmentada, incluindo membros do programa Fiel Torcedor, proprietários de camarotes, titulares do produto “Minha Cadeira”, conselheiros, sócios, parceiros, patrocinadores, órgãos públicos, e pedidos internos (atletas e funcionários). Segundo seu depoimento, os ingressos eram nominalmente emitidos, exigindo documento de identificação – inclusive cortesias.
O uso de logins internos para distribuição de ingressos com descontos ou mesmo gratuidades já havia sido denunciado por Marcelo Munhoes, atual diretor de tecnologia, durante o período em que esteve fora do clube após sua demissão em janeiro. Após seu retorno, e com o advento da biometria facial em Itaquera, a disponibilidade de ingressos por meio deste artifício foi cortada, com mais de 4.500 ingressos voltando ao FT.
A consequência disso foi o grande aumento no número de ingressos vendidos pelo valor de face para não-sócios da plataforma. Se antes da biometria facial a média de tickets vendidos dessa forma dificilmente passava de mil por jogo, agora esse número subiu para mais de sete mil por jogo, totalizando 26.004 em quatro jogos.
Outro ponto de discrepância entre o depoimento e a realidade vivida na Neo Química Arena diz respeito à rastreabilidade dos ingressos. À polícia, o ex-administrador do estádio garantiu que era possível rastrear reversamente a destinação de cada ingresso para grupos ou indivíduos específicos, com todos os ingressos sendo emitidos via acesso com senha ao Fiel Torcedor e identificação nominal de emissor e o titular.
No entanto, documentos levantados pela gestão interina mostraram que era corriqueira a prática de, na verdade, fazer o exato oposto disso. A apuração interna do caso no Corinthians mostrou que muitos ingressos eram emitidos com nomes genéricos como “Comercial 1”, “Camarote 18” ou “MKT 2”, sem qualquer identificação real do titular. Com isso, o desvio desses bilhetes era facilitado, sendo vendidos facilmente para qualquer pessoa por meio de redes sociais ou aplicativos de mensagens.
Outra grave divergência apontada tratava dos próprios desvios em si, pois Blanco afirmou ter tomado conhecimento das denúncias apenas pela imprensa, sustentando que sabia apenas que alguns associados do FT “abusavam do sistema” emitindo até cinco ingressos para revenda não autorizada, e que o Corinthians bloqueava o acesso desses indivíduos.
No entanto, o ex-funcionário foi desmentido no âmbito do próprio inquérito por Ricardo Okabe, gerente de operação da Neo Química Arena. Ele confirmou em depoimento que recebeu diversas denúncias de irregularidades, encaminhando todas a seus superiores – Blanco e Mariano – e que jamais foi tomada qualquer providência, passando inclusive a receber demandas alheias à sua função, como atividades em exposições e eventos culturais.
A situação fez Okabe colaborar em uma investigação informal de funcionários do estádio em busca de evidências de desvios de ingressos no FT, levando-o a ser dispensado do cargo. No entanto, ele retornou ao posto recentemente a convite do presidente interino Osmar Stabile.
Lúcio Blanco ainda detalhou às autoridades que a Ligatech, à época apenas responsável pelo controle de acesso da Neo Química Arena, estava testando um sistema de reconhecimento facial. Ele fazia referência ao plano piloto conduzido pela empresa no Setor Oeste, cuja existência foi revelada pela Central do Timão em matéria publicada no início de junho. A declaração reforça a legitimidade da decisão de romper com a Bepass, tomada pela gestão interina, após esta não avançar com o cronograma proposto depois de assinar contrato ainda durante a gestão Augusto Melo.
Vale lembrar que o delegado Marcel Madruga, responsável pelo inquérito, concluiu que não havia indícios de crimes cibernéticos ou invasões no sistema de emissão de ingressos do FT, descartado assim hipóteses de violações ou falhas que pudessem comprometer a segurança do processo. No entanto, foi detectada a ocorrência de revenda irregular de ingressos por sócios.
Em seu relatório, porém, ele destacou que a apuração do caso e a aplicação de possíveis sanções contra pessoas ligadas ao clube envolvidas nas irregularidades cabem ao próprio Corinthians a partir dos regulamentos internos do clube, em conformidade com a autonomia das entidades privadas assegurada pela legislação brasileira. Dessa forma, recomendou o arquivamento do inquérito, o que ocorreu em maio.
Já no início de julho, o Corinthians solicitou à Justiça o levantamento do sigilo dos autos, o que foi concedido no último dia 11. Desde então, o clube tem acesso a todos os documentos produzidos pelas autoridades. Segundo apurado pela Central do Timão, o próximo passo, que é o que está sendo feito agora, é a análise do material para posterior envio aos órgãos de fiscalização, como o Conselho Deliberativo (CD).
A Central do Timão procurou Ricardo Okabe, que confirmou as alegações feitas em depoimento à polícia e que voltou a trabalhar na Neo Química Arena após a entrada da gestão interina no Corinthians. Lúcio Blanco também foi ouvido, e afirmou que ainda não foi chamado pelo clube para prestar esclarecimentos adicionais em relação ao que afirmou às autoridades.
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