- Por Henrique Vigliotti | Redação da Central do Timão
No início da noite desta quarta-feira (4), o Conselho Deliberativo do Corinthians promoveu a décima audiência pública do ciclo de debates sobre a Reforma do Estatuto do clube, com foco nas disposições gerais e transitórias do projeto e no cronograma de implantação.
Realizada no anfiteatro do Parque São Jorge, a reunião voltou a ocorrer sem a presença de membros da presidência e sem transmissão pela Corinthians TV, contando apenas com dois integrantes da diretoria estatutária: Marcelo Munhoes, da área de tecnologia, e Joaquim de Arruda, conselheiro licenciado e diretor estatutário da área comercial.

O encontro reuniu cerca de 30 pessoas, contou com a participação de sete oradores e teve duração de pouco mais de duas horas. Na mesa, estiveram presentes Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho Deliberativo, Miguel Marques e Silva, presidente do Conselho de Orientação (Cori), Dalton Gioia, presidente da Comissão de Reforma do Estatuto, e Gerson Leme, um de seus integrantes.
O primeiro orador da noite foi Fernando de Souza, representante do Coletivo Voz Corinthiana, que apresentou proposta de alteração nos valores que definem os limites para a ampliação, ou não, das decisões do CORI em cada negociação ou transferência.
Na sequência, Alexandre Germano, associado e ex-diretor financeiro do Corinthians na gestão Augusto Melo, pediu a palavra e iniciou sua fala agradecendo pelos debates já realizados no processo de reforma estatutária. Em seguida, abordou a questão dos conselheiros vitalícios, tema que não constava na pauta da reunião. Germano ainda mencionou a necessidade de um “Código de Conduta”, defendendo que as normas voltadas a orientar e resguardar o comportamento de dirigentes e representantes do Corinthians sejam discutidas de forma conjunta com o Estatuto, a fim de garantir uma aprovação mais adequada e consistente.
Tuma explicou que, no âmbito do regimento interno, o Código de Conduta já vem sendo elaborado internamente por representantes do Conselho e que deverá ser apresentado e levado a público no momento oportuno, para então ser incorporado ao Estatuto.
Hicham Said Abbas, do Coletivo Família Corinthians, abriu seu discurso defendendo que as próximas reuniões, que serão restritas ao Conselho Deliberativo, tenham início com a pauta do voto do Fiel Torcedor e sejam orientadas pela ampliação do poder da torcida. Segundo ele, a medida contribuiria para tornar o Estatuto mais rigoroso e moderno. O associado também cobrou maior transparência quando o conteúdo for levado a público.
Hicham voltou a tratar da questão do Fiel Torcedor, mas foi interrompido após pedido de aparte de Paulo Roberto Bastos Pedro, membro do Cori, que solicitou que o associado se mantivesse na pauta da reunião, restrita às disposições gerais e às regras transitórias. Ao abordar o tema, Hicham defendeu que os departamentos do clube social também sejam incluídos no portal de transparência.
Outro ponto levantado por Hicham foi a discussão sobre as nomenclaturas e os critérios que definirão o que será considerado receita no texto do anteprojeto. Sobre o tema, o conselheiro Rozallah Santoro explicou que o texto ainda pode ser aprimorado para uma especificação mais precisa das receitas.
Lucimar Russo, associada, também se manifestou em defesa de mudanças nas regras do título associativo, propondo a divisão dos titulares “00” entre mulher e homem, de modo que ambos possam exercer poder político dentro do clube.
Em sua vez de fala, Paulo Pedro voltou a se manifestar e comentou o artigo 124, que trata da criação de uma comissão em regime transitório para questões administrativas. Ele criticou o texto do parágrafo 8º, que prevê o enquadramento da gestão executiva como temerária caso não siga as determinações da comissão transitória, e utilizou como exemplo o governo federal, argumentando que o Poder Legislativo não pode interferir diretamente nas decisões do Executivo.
Romeu Tuma pediu aparte e explicou que a proposta da comissão transitória prevê, inclusive, a participação de um membro da diretoria. Segundo ele, o parágrafo em questão foi elaborado com o objetivo de garantir que o Corinthians tenha um direcionamento claro e decisões definidas sobre os rumos da gestão nos próximos anos.
O conselheiro fez questão de destacar que a comissão mista técnica instituída pelo Conselho Deliberativo, sob a presidência de Romeu Tuma Jr., foi fundamental no processo do Regime Centralizado de Execuções (RCE), que permitiu ao clube evitar o bloqueio de suas contas no último ano.
No início de sua fala, Paulo Pedro ainda tentou abordar a presença de Valmir Costa, associado e ex-secretário-geral do clube durante a gestão Augusto Melo, afirmando que ele deveria prestar esclarecimentos por suas ações enquanto diretor do Corinthians. A manifestação, no entanto, foi interrompida por Romeu Tuma Jr., que pediu pela ordem e reforçou que não haveria espaço para ataques pessoais durante a pauta da reunião.
Rozallah Santoro abordou a diferença entre o modelo considerado ideal e aquele em que o clube se encontra do ponto de vista estatutário, ressaltando a importância de serenidade na avaliação dos pontos que poderão ou não ser aprovados tanto no Conselho quanto na Assembleia Geral. O conselheiro manifestou ainda preocupação de que o esforço empreendido nas audiências públicas seja esvaziado caso o texto venha a ser reprovado.
O ex-diretor financeiro também abordou a questão da flexibilização ou do engessamento da gestão, ao comentar as diversas travas e burocracias previstas no novo anteprojeto. Ele questionou qual seria o sentido de ampliar o tempo de mandato de três para quatro anos diante da imposição de tantas restrições. Rozallah concluiu sua fala ponderando quais travas são, de fato, necessárias, considerando que o Estatuto já pressupõe a boa-fé na gestão.
Roberson de Medeiros, o Dunga, ex-presidente da Comissão de Ética, abriu seu discurso abordando a questão dos orçamentos da diretoria. Segundo ele, a comissão financeira do Conselho vem enfrentando dificuldades ao solicitar documentos e esclarecimentos à atual gestão, e mencionou o descumprimento de uma norma estatutária que exige a apresentação de, no mínimo, três orçamentos para a contratação de profissionais, empresas ou parceiros.
Joaquim de Arruda, conselheiro licenciado e atual diretor comercial do Corinthians, pediu aparte e afirmou que os próprios integrantes do atual Conselho Deliberativo também devem assumir responsabilidade pelos problemas apontados, defendendo uma postura mais firme nas cobranças e na atenção aos detalhes debatidos. Em seguida, Romeu Tuma solicitou novo aparte e informou que o CD tem encaminhado pedidos formais de documentação, ofícios e pautas, mas que presidentes e diretores não respondem. Ele citou, inclusive, episódio noticiado pela Central do Timão, no qual o presidente Osmar Stabile teria impedido, na última terça-feira (3), que um funcionário do CT fosse ouvido pela Comissão de Justiça, no caso que apura desvios de materiais esportivos do clube.
Vinicius Cascone, conselheiro trienal e ex-diretor jurídico, afirmou que há falhas no processo de checagem dos orçamentos de empresas a serem contratadas pelo clube. Segundo ele, existe direcionamento nas contratações, muitas vezes envolvendo empresas com vínculos entre si, e defendeu a criação de um órgão específico para analisar esses contratos e os prestadores de serviço envolvidos.
Hicham Said pediu aparte pela ordem, alegando que não havia sido criada uma comissão eleitoral para regulamentar detalhes da Assembleia Geral, como os participantes autorizados a votar e outros aspectos do pleito que definirá a aprovação do Estatuto. O pedido, entretanto, foi rejeitado por Romeu Tuma, que explicou que as regras eleitorais já estão definidas no próprio Estatuto.
Ao final da reunião, o presidente do CD destacou a importância e o caráter histórico do momento, que, segundo ele, vem sendo construído com democracia e em sintonia com a história do clube. Agradeceu a todos os coletivos, conselheiros e associados que participaram das audiências públicas, enviaram e-mails ou solicitaram pautas, elogiando, inclusive, a presença e o engajamento de duas torcidas organizadas, Fiel Macabra e Gaviões da Fiel, nos encontros e nos debates das pautas.
Romeu concluiu afirmando que nenhuma votação de expulsão será realizada antes da aprovação do novo Estatuto, ressaltando que, pelo rito regimental, nenhuma deliberação ocorrerá antes que o texto atualizado seja colocado em pauta, garantindo que todas as decisões sigam as novas regras em vigor.
No final da reunião, ocorreu um desentendimento entre Paulo Pedro e Valmir Costa, que resultou em uma discussão acalorada. Segundo o membro do Cori, o episódio culminou em ameaças por parte de Valmir, enquanto ele era conduzido para fora do anfiteatro por aproximadamente quatro pessoas.
Última audiência
Na próxima segunda-feira (9), será realizada uma audiência extra, exclusiva para membros do Conselho Deliberativo, com o objetivo de debater procedimentos de votação, roteiros e temas que apresentem propostas de texto conflitantes ou divergentes, fornecendo subsídios à Comissão de Reforma Estatutária para a finalização do anteprojeto, que será levado à votação em março.
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