Coletivo corinthiano vê risco à Assembleia e recorre ao MP para garantir votação da reforma pelos sócios

  • Por Henrique Vigliotti/Redação da Central do Timão

Na manhã desta terça-feira (24), o Coletivo Voz Corinthiana, formado por sócios e torcedores do Corinthians que acompanharam todas as audiências públicas da reforma do Estatuto, manifestou-se oficialmente após a reunião extraordinária realizada na última segunda-feira (23), na qual os conselheiros presentes aprovaram o afastamento provisório do presidente do Conselho Deliberativo, Romeu Tuma Júnior.

No comunicado, o grupo afirma que a decisão ocorreu à margem da legalidade estatutária e acusa a atual gestão do clube, liderada por Osmar Stabile, de promover uma “ruptura institucional interna” para barrar o avanço da proposta de reforma do Estatuto.

Segundo a manifestação, a sessão realizada no Parque São Jorge teria desrespeitado o devido processo previsto nas normas internas do clube e violado princípios de convivência democrática. O coletivo sustenta que a votação foi conduzida com base em interpretações isoladas do Estatuto e com atuação coordenada de dirigentes e conselheiros para impedir a continuidade do debate sobre a modernização institucional.

A nota também aponta suposta “captura política” dos órgãos de controle do clube, citando questionamentos já apresentados à Comissão de Ética sobre eventual conflito de interesses na presidência do Conselho Fiscal, atualmente ocupada por Haroldo Dantas, apontado pelo grupo como funcionário do presidente do Corinthians. O coletivo afirma ainda que o dever de transparência previsto na Lei Geral do Esporte estaria sendo desrespeitado em decisões recentes da administração.

O comunicado faz críticas diretas à atuação do Conselho de Orientação (CORI) durante a reunião. De acordo com o texto, o presidente do órgão, Miguel Marques e Silva, e o secretário, Paulo Roberto Bastos Pedro, teriam legitimado uma votação considerada irregular, sem competência formal para conduzir o procedimento. O coletivo sustenta que a medida teria como objetivo impedir a votação da reforma estatutária, proposta que vem sendo discutida há meses no clube.

A nota também menciona a participação de conselheiros ligados à Chapa 82, grupo que, segundo o coletivo, se apresentou no processo eleitoral como alternativa técnica à política tradicional do clube, mas teria atuado para garantir quórum e viabilizar o afastamento de Tuma. O advogado Felipe Ezabella, ex-integrante do mesmo grupo, é citado como um dos participantes da articulação que levou à continuidade da sessão mesmo após questionamentos sobre sua legalidade.

Outro ponto destacado pelo Coletivo Voz Corinthiana foi a postura de conselheiros que defenderam a validade da reunião mesmo diante de divergências estatutárias. O ex-diretor de futebol Rubens Gomes, conhecido como Rubão, é citado no texto como um dos que sustentaram a legitimidade do ato, apesar das críticas quanto à fundamentação jurídica utilizada.

Além das críticas ao procedimento, o coletivo relatou que a reunião foi marcada por episódios de tensão e desrespeito entre conselheiros. Segundo a nota, a conselheira Miriam Athie teria sido alvo de agressões verbais e tentativa de agressão física por parte do conselheiro Alexandre Husni, fato que, para o grupo, evidencia o nível de degradação do ambiente político interno do clube.

Para o coletivo, a votação pelo afastamento do presidente do Conselho Deliberativo teve como consequência direta o enfraquecimento do processo de reforma estatutária, que prevê mudanças como mecanismos mais rígidos de transparência, regras de compliance, vedação ao nepotismo, criação de órgãos independentes de fiscalização e adequação do Estatuto à Lei Geral do Esporte.

O coletivo afirma que a manobra política teria ocorrido mesmo diante da existência de investigação em curso no Ministério Público de São Paulo sobre a governança do clube, o que, segundo o grupo, demonstra falta de preocupação com possíveis responsabilizações futuras.

Petição para o Ministério Público

Ao final da nota, o Voz Corinthiana informa que irá peticionar ao Ministério Público para garantir a realização da Assembleia Geral marcada para o próximo dia 18 de abril, quando está prevista a votação do projeto de reforma estatutária, elaborado após 11 audiências públicas promovidas no âmbito do Conselho Deliberativo para debater a proposta.

O grupo defende que a decisão deve ser tomada pelo quadro associativo, a quem atribui a soberania para deliberar sobre mudanças estruturais no Corinthians.

Confira, na íntegra, a nota publicada pelo Coletivo Voz Corinthiana:

23/03/2026: um dia triste para a história do Sport Club Corinthians Paulista

Ontem o Parque São Jorge testemunhou a concretização de uma verdadeira ruptura institucional interna. A aprovação do afastamento do Presidente do Conselho Deliberativo, Romeu Tuma Júnior, ocorreu à margem de qualquer legalidade, atropelando o devido processo estatutário e as regras mais básicas de convivência democrática do clube para impor, à força, uma agenda de retrocesso.

O cenário político contemporâneo do Corinthians mudou de forma alarmante. Assistimos, atônitos, a uma flagrante captura política dos órgãos de controle pelo Presidente Osmar Stábile. O dever de informação, previsto na Lei Geral do Esporte (art. 64, parágrafo único, inciso III), vem sendo sistematicamente pisoteado, sobretudo quando envolve conflitos de interesses. Já havíamos peticionado à Comissão de Ética sobre o conflito de interesses na presidência do Conselho Fiscal, que é ocupada pelo Sr. Haroldo Dantas, funcionário de Osmar Stábile, e agora a contaminação se mostra generalizada.

Na trágica noite de ontem, presenciamos a captura do próprio CORI. O Presidente do órgão, Sr. Miguel Marques, e o Secretário, Sr. Paulo Pedro, legitimaram uma votação viciada. Pessoas que deveriam resguardar a técnica jurídica preferiram ler o Estatuto em tiras, citando dispositivos isolados para justificar uma manobra política. Subverteram as finalidades do órgão e, mesmo sem possuírem os poderes para tal, atuaram de forma orquestrada com um único alvo: derrubar a reforma do Estatuto.

A hipocrisia do movimento foi escancarada pelo próprio Secretário do CORI. Ele provocou dizendo que quem discordava da reunião poderia ir à Justiça, mas é fato público e notório que ele não fez o mesmo contra a Assembleia Geral, que ele também acusa de ilegalidade. Sem argumentos jurídicos consistentes para barrar a votação nos Tribunais, restou a eles o caminho do autoritarismo: aplicar um golpe político interno para impedir que o sócio decida sobre a reforma.

Já o Presidente do CORI, quando questionado sobre os motivos técnicos e jurídicos do afastamento em pauta, a resposta foi o desejo de votar a reforma no Conselho Deliberativo.

A gravidade do cenário é aprofundada pela postura de grupos que até então se apresentavam como “alternativas técnicas” à velha política do clube. A Chapa 82, que arregimentou o apoio e a esperança de grande parte da torcida sob o discurso de renovação, demonstrou atuar com a mesma lógica que dizia combater.

Ao comparecerem em peso para garantir o quórum e chancelar a votação ilegítima de ontem, provaram atuar de forma fisiológica, orbitando o poder sem qualquer compromisso com a legalidade dos meios ou com a modernização da instituição.

A desilusão com figuras que antes ostentavam o verniz da técnica e da legalidade não parou por aí. O advogado Felipe Ezabella, ex-integrante da mesma chapa e até então tido por muitos como um quadro diferenciado, também deixou sua digital nessa manobra.

Em entrevista após a sessão, ao tentar justificar o inaceitável ocorrido com a secretária do Conselho, Maria Ângela, que foi impedida de finalizar a reunião mesmo após ter declarado formalmente o seu encerramento por ilegalidade, ele utilizou repetidamente a primeira pessoa (nós). A escolha escancara o que já estava subentendido: sua atuação ativa como um dos arquitetos da ruptura.

Quando um operador do direito naturaliza o atropelo das prerrogativas da mesa diretora para impor uma votação à força, fica provado que o discurso de modernização era apenas uma embalagem para as velhas práticas.

O desdém pelas regras internas ficou ainda mais evidente nas manifestações do conselheiro e ex-diretor de futebol, Rubens Gomes (Rubão). Em entrevista, ele chegou a defender publicamente a suposta “legitimidade” da sessão.

Contudo, ao ser confrontado com o fato de que a manobra utilizou exatamente a mesma fundamentação estatutária da tentativa de ruptura ocorrida em 2025 (durante a gestão da qual fez parte), sua resposta foi reveladora: “os artigos não importam”. Para os arquitetos desse retrocesso, o Estatuto é mero detalhe.

Como se não bastasse o atropelo às regras jurídicas, a noite também foi manchada por um deplorável episódio de violência e desrespeito. A conselheira Miriam Athie, que estava presente e se posicionava de forma contrária à manobra, relatou ter sido alvo de agressão verbal e tentativa de agressão física por parte do Conselheiro Alexandre Husni.

É preciso ser categórico: em primeiro lugar, é absolutamente inaceitável e repugnante que um conselheiro aja de forma violenta para intimidar e tentar agredir uma mulher. Em segundo lugar, o episódio escancara o nível de degradação institucional do clube. O Conselho Deliberativo, que deveria ser o palco do debate de ideias e da civilidade, transformou-se, mais uma vez, em uma arena de confusão, baixaria e barbárie.

Em resumo, a manobra armada ontem serviu exclusivamente para frear a modernização da instituição e impedir que o sócio decida o futuro do clube, custando a própria dignidade do ambiente político corinthiano.

O desrespeito à legalidade chegou a um nível tão crítico que ninguém parece ligar para a existência de um inquérito civil do Ministério Público do Estado de São Paulo em curso.

Possuem zero senso de urgência e agem como se estivessem acima de qualquer responsabilização, apostando alto e jogando o futuro do clube nas mãos das mesmas figuras políticas de sempre, com a garantia de zero mudanças estruturais.

O Coletivo Voz Corinthiana reafirma seu compromisso inabalável com a legalidade e a legitimidade. Sempre apoiamos e continuaremos lutando pela profissionalização, pela transparência e pela democratização do clube. Nossa defesa não é feita apenas de retórica, mas de instrumentos concretos e efetivos de fiscalização institucional, que inclusive estão previstos no projeto de reforma que o status quo tenta, a todo e qualquer custo, aniquilar.

A quem interessa não vedar o nepotismo?
A quem interessa não estabelecer um rito claro de responsabilização interna com o próprio patrimônio?
A quem interessa a falta de adequação do Estatuto à Lei Geral do Esporte?
A quem interessa a falta de umaControladoria de Compliance e Governança?
A quem interessa a ausência de um Conselho de Ética independente da política do Conselho Deliberativo?
A quem interessa que atransparência não seja um dever institucional, previsto no Estatuto?

Não aceitaremos que rasguem o Estatuto (e o projeto de reforma) para proteger privilégios.

Iremos peticionar ao Ministério Público do Estado de São Paulo para garantir a realização da Assembleia Geral marcada para o dia 18 de abril de 2026, órgão soberano do Sport Club Corinthians Paulista, para que seja votado o projeto elaborado após meses de debates e 11 audiências públicas, com participação aberta a sócios, Conselheiros e torcedores.

Pelo Corinthians, sempre!

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