- Por Henrique Vigliotti e Larissa Beppler | Redação da Central do Timão
Na última quarta-feira (21), o Conselho Deliberativo (CD) do Corinthians promoveu a quinta audiência pública do ciclo de debates sobre a Reforma do Estatuto do clube, que teve como pauta o sistema de eleição para o Conselho e para a Diretoria Executiva. Com cerca de 50 presentes, a reunião foi marcada por divergências em torno das propostas apresentadas no anteprojeto.
O presidente Osmar Stabile não participou do encontro, que também registrou baixa presença de conselheiros e, mais uma vez, não pôde ser transmitido, apesar das solicitações do presidente do CD Romeu Tuma Júnior e do conselheiro Vinícius Cascone. Em entrevista recente, Stabile declarou que a transmissão somente será autorizada se for aberta a todos os veículos de imprensa, e não exclusivamente à TV institucional do clube. Tuma, por sua vez, afirmou que o mandatário não fez qualquer menção a essa condição.

Além de alguns conselheiros, associados e representantes da imprensa, a audiência pública contou com a participação de integrantes do movimento Arquibancada 85, dos coletivos Voz Corinthiana e Família Corinthians, bem como de um representante da Gaviões da Fiel.
O debate se concentrou nas alterações propostas ao Capítulo IV do Estatuto (artigos 52 a 75, com exceção do artigo 72), responsável por disciplinar o processo eleitoral do clube, abrangendo as regras gerais das eleições, os modelos de votação possíveis, os dispositivos que regulam o registro e a impugnação de candidaturas, os critérios de apuração, as modalidades de voto presencial, eletrônico e online, bem como as normas relativas à eleição da diretoria executiva.
Principais pontos debatidos
Atualmente, o anteprojeto de Reforma do Estatuto contempla duas propostas distintas para o sistema de eleição do Conselho Deliberativo. A primeira estabelece um modelo proporcional por chapas, no qual as vagas são distribuídas de acordo com o desempenho eleitoral de cada grupo, com a exigência de votação mínima individual. Já a segunda propõe um sistema majoritário individual, sem chapas, no qual os associados votam diretamente nos candidatos até o preenchimento das 200 vagas.
Na reunião, conselheiros, associados e coletivos manifestaram apoio majoritário ao sistema proporcional, no qual as cadeiras do Conselho são distribuídas conforme o desempenho eleitoral de cada chapa, por considerarem que o modelo fortalece a representatividade e possibilita a organização de bancadas com identidade política dentro do órgão.
O Coletivo Voz Corinthiana, por exemplo, manifestou-se favoravelmente ao sistema proporcional com lista aberta, no qual o eleitor escolhe diretamente o candidato, e o voto possui efeito duplo: conta tanto para a classificação interna da chapa quanto para o desempenho individual do candidato.
Nesse modelo, o total de votos obtidos por cada chapa define o número de cadeiras a que fará jus, sendo elas ocupadas pelos candidatos mais votados dentro de cada grupo. Como exemplo, foi mencionado que, na última eleição, a chapa Liberdade Corinthiana obteve 272 votos, enquanto a Renovação e Transferência alcançou 279, resultado que garantiu 25 cadeiras à segunda e nenhuma à primeira.
Além da proporcionalidade, outro tema bastante discutido foi o tempo de carência necessário para participar das eleições do clube. Wesley Marinho, representante do Coletivo Voz Corinthiana, defendeu a redução da carência de cinco para dois anos. O associado Cyrillo Cavalheiro Neto também se manifestou nesse sentido, defendendo a redução do período de carência para três anos. Além disso, propôs que a cota mínima de representação feminina no Conselho Deliberativo seja ampliada de 20% para 30%.
Também foram debatidas a fidelidade programática, com o objetivo de institucionalizar ideias no sistema de votação proporcional, e a adoção do voto online nas eleições, por meio de validação por biometria facial. O Coletivo Voz Corinthiana destacou a necessidade de rigor máximo na contratação da empresa responsável pela votação online, que passará a ser indispensável com a inclusão do voto do Fiel Torcedor, defendendo que o texto preveja a exigência de experiência comprovada em pleitos similares e certificações de segurança digital.
Uma proposta apresentada por alguns participantes, e que recebeu boa receptividade do presidente do CD, prevê a criação de dois pontos físicos de votação, um na sede do clube e outro na Neo Química Arena, além do voto online. A sugestão foi formulada levando em conta a ampliação da base eleitoral com a inclusão do voto do Fiel Torcedor.
O conselheiro Felipe Ezabella apresentou diversas considerações de natureza técnica e jurídica a respeito do anteprojeto. Entre os pontos levantados, criticou a exigência de afastamento de membros da diretoria por seis meses antes da candidatura, por avaliar que a medida compromete a continuidade da gestão, e defendeu a adoção do voto individual para o CD e a auditoria das urnas, desde que preservado o sigilo do voto. Romeu Tuma solicitou um aparte para esclarecer que há a intenção de profissionalizar determinados cargos da diretoria, como o de marketing, que passariam a ser remunerados e, consequentemente, inelegíveis.
Alex da Mata, assessor de imprensa da Gaviões da Fiel, pediu a palavra para cobrar celeridade nos processos de expulsão de Andrés Sanchez, Augusto Melo e Duilio Monteiro Alves, citando o manifesto publicado pela torcida na véspera. Em resposta, Romeu Tuma afirmou que já solicitou agilidade à Comissão de Ética e que estabeleceu um prazo interno para a conclusão dos processos, sem, contudo, divulgar a data.
Vinícius Cascone elogiou a elaboração do Regime Centralizado de Execuções (RCE), recentemente homologado, e ressaltou que cabe ao Conselho Deliberativo fiscalizar o cumprimento do acordo. Além disso, manifestou-se contrário à exigência de dois mandatos no Conselho como requisito para a candidatura à presidência e levantou questionamentos sobre a manutenção dos conselheiros vitalícios no contexto do debate sobre oxigenação do clube e alternância de poder.
Debate acalorado
O encerramento da audiência foi marcado por discussões acaloradas e deslocadas do tema em pauta, protagonizadas pelo conselheiro Peterson Ruan e pelo presidente do CD, que acabou decretando o fim dos trabalhos, após o conselheiro trienal solicitar um aparte durante a fala de Vinícius Cascone. O pedido não foi autorizado por Tuma, sob a justificativa de que se tratava de assunto alheio à pauta da audiência.
Contrato com a Caixa
Antes do início das manifestações de conselheiros e associados, Romeu Tuma Júnior abriu a audiência com esclarecimentos sobre a reunião que aprovou, por aclamação, o contrato de refinanciamento da Neo Química Arena com a Caixa Econômica Federal.
O presidente do Conselho afirmou que não esteve presente no encontro por estar acometido por Covid-19 e criticou o rito adotado na época. Segundo ele, embora houvesse a necessidade de refazer o acordo em razão da execução da dívida, os conselheiros deveriam ter tido acesso ao contrato na íntegra, e não apenas à explanação do então diretor financeiro.
Tuma também criticou o ex-presidente do CD Alexandre Husni pela realização da votação por aclamação. De acordo com o dirigente, o novo Estatuto proibirá esse tipo de votação e estabelecerá a obrigatoriedade de que todos os documentos financeiros passem pela análise do Conselho de Orientação (Cori).
Próximas audiências
Nesta sexta-feira (23), será realizada a sexta audiência pública, ainda com foco no Conselho Deliberativo, sua composição, funcionamento e deliberação. Interessados em participar precisam realizar inscrição antecipada pelo e-mail estatuto@sccorinthians.com.br, com prazo limite de até três horas antes do início de cada sessão.
Após a realização das 11 audiências públicas previstas, a Comissão de Reforma do Estatuto consolidará os apontamentos para elaborar a versão final do texto, que será submetida à votação do Conselho Deliberativo e, em seguida, encaminhada à Assembleia Geral dos associados, prevista para março.
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