- Por Larissa Beppler | Redação da Central do Timão
A Laspro Consultores, administradora judicial do Regime Centralizado de Execuções (RCE) do Corinthians, apresentou ao Judiciário um novo relatório de acompanhamento do plano de pagamento, com análise detalhada das movimentações financeiras do clube nos meses de fevereiro e março de 2026. O documento valida os critérios adotados na apuração das receitas de fevereiro, mas chama atenção para o peso de operações financeiras no fluxo de caixa e, sobretudo, faz uma ressalva expressa quanto à confiabilidade das informações referentes a março.
Um dos trechos do relatório, ao qual a Central do Timão teve acesso, diz respeito à composição das entradas financeiras do clube. A administradora destaca que parte significativa dos valores registrados não corresponde a receitas operacionais, mas sim a antecipações e operações de crédito, o que impacta diretamente a forma de cálculo dos valores destinados ao RCE. Entre os principais exemplos, aparecem:
- R$ 46.978.743,15 de antecipação vinculada à Esportes da Sorte;
- R$ 23.750.000,00 de adiantamento contratado junto ao Banco Daycoval (relacionado ao contrato com a Nike).

Esses montantes, embora registrados no fluxo de caixa e devidamente identificados em extratos bancários, foram classificados como operações financeiras. A análise aponta que tais valores possuem natureza de endividamento – e não de receita -, uma vez que decorrem de antecipações e empréstimos, com reflexo direto no aumento do passivo do clube. Diante disso, a administradora judicial considerou adequada a exclusão dessas quantias da base de cálculo do regime.
A constatação ajuda a esclarecer a diferença entre o volume total movimentado pelo Corinthians em fevereiro, de R$ 213,4 milhões, e a receita efetivamente considerada para fins de cálculo do RCE, fixada em R$ 64,2 milhões. De acordo com o relatório, a divergência de R$ 149,2 milhões se explica, em grande parte, pela retirada de valores que não possuem natureza de receita operacional recorrente, como operações financeiras, transferências internas e receitas atreladas à negociação de atletas.
No fim de março, a Justiça chegou a alertar o Corinthians sobre a possibilidade de nomeação de um interventor judicial, após a Laspro apontar a diferença de quase R$ 150 milhões nas receitas de fevereiro. Agora, no entanto, a administradora concluiu que os critérios adotados pelo clube estão em conformidade com as normas contábeis e com o regime de competência, afastando a hipótese de inconsistências na apuração.
Ainda em relação ao mês de fevereiro, o documento reconhece que as receitas provenientes da venda de jogadores não devem compor a base principal do RCE, mas ressalta que parte desses recursos deve seguir destinação específica prevista no plano. Nesse contexto, foi apontada a obrigação de direcionar R$ 1,36 milhão, equivalente a 20% desses ingressos, ao mecanismo de leilão reverso.
No que diz respeito a março, o Corinthians apresentou receita corrente de R$ 66,3 milhões e indicou o repasse de R$ 2,65 milhões ao RCE, correspondente ao percentual de 4%. A Laspro afirma que, sob o ponto de vista matemático, os cálculos estão corretos e seguem a metodologia estabelecida. No entanto, a análise encontra uma limitação importante, destacada de forma enfática na conclusão do relatório.
Isso porque os dados de março foram apresentados sem o suporte de documentos essenciais, como extratos bancários, balancetes contábeis e comprovantes detalhados das movimentações financeiras. Diante dessa ausência, a administradora ressalta que a avaliação se baseia exclusivamente em informações declaratórias do clube, o que impede a validação substancial dos números.
O documento é categórico ao afirmar que essa limitação compromete a confiabilidade integral das informações e que, caso a documentação seja apresentada posteriormente, poderão ser necessários ajustes, revisões e compensações nos relatórios seguintes. A ressalva, destacada no item 38 das conclusões, coloca o mês de março sob monitoramento e condiciona sua validação definitiva à comprovação documental.
Diante disso, a Laspro solicita à Justiça a intimação do Corinthians para comprovar o pagamento dos rateios de fevereiro e março, além de apresentar, em até 48 horas, a relação detalhada dos valores depositados em conta judicial, com a identificação dos credores e seus dados bancários, ou a comprovação de eventual efeito suspensivo em recurso em andamento. Caso os dados bancários não tenham sido fornecidos, o clube deverá indicar ao menos o número dos processos e os juízos competentes, a fim de viabilizar a correta destinação dos valores. Por fim, a administradora anexa a lista atualizada de credores sujeitos ao RCE, com os respectivos valores devidos.
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