- Por Larissa Beppler e Henrique Vigliotti | Redação da Central do Timão
O promotor de Justiça Cássio Conserino esteve na tarde desta quinta-feira (12) no Parque São Jorge para acessar documentos que podem auxiliar nas investigações conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) sobre possíveis gastos irregulares nas gestões dos ex-presidentes Andrés Sanchez e Duilio Monteiro Alves.
A diligência teve como objetivo reunir notas fiscais, faturas de cartões de crédito, planilhas e demais registros contábeis relacionados a despesas realizadas durante os dois mandatos. O promotor chegou ao clube acompanhado por viaturas da Polícia Militar e por outras autoridades, sendo recebido pelo presidente Osmar Stabile e pelo diretor de Negócios Jurídicos Pedro Luis Soares.

A visita durou cerca de quatro horas e incluiu a inspeção do setor de arquivos do clube. Entre os casos analisados pelo Ministério Público estão o repasse de aproximadamente R$ 3,4 milhões em espécie a um ex-chefe de segurança do clube e o pagamento de cerca de R$ 1,2 milhão a um ex-motorista ligado à gestão de Duilio. Nas duas situações, segundo a investigação, não há documentação considerada suficiente para comprovar a regularidade das movimentações financeiras.
A reportagem da Central do Timão acompanhou a movimentação no Parque São Jorge e conversou com o promotor e com o diretor jurídico do clube após a diligência.
Reunião considerada produtiva
Ao comentar o encontro, Cássio Conserino avaliou que a reunião foi positiva e permitiu avançar na organização das provas necessárias para a investigação.
“Muito produtiva, nós conseguimos delinear uma linha de raciocínio para exteriorizar as provas necessárias para a demonstração da materialidade delituosa. Convencionamos de fazer uma remessa da documentação que dizia respeito às planilhas que davam a entender sobre adiantamento de despesas em espécie“, disse.
O promotor afirmou que o clube se comprometeu a disponibilizar dados bancários e fiscais para confirmar saques em dinheiro apontados nas planilhas já analisadas.
“O Corinthians se comprometeu em abrir o sigilo fiscal e bancário e entregar ao Ministério Público a documentação que revela a retirada do dinheiro em consonância com a planilha que já foi exteriorizada na investigação, que denota, no mandato do ex-presidente Andrés Sanchez, a retirada de R$ 3,5 milhões em pecúnia.”
Durante a análise dos arquivos, parte da documentação necessária não foi localizada no clube, o que, segundo o promotor, não foi atribuído à atual administração.
“Além disso, nós tivemos acesso a algumas atas do Conselho Fiscal e do Conselho Deliberativo. Entretanto, chamou a atenção que nós não conseguimos, não por culpa do Corinthians que foi muito colaborativo, acesso às documentações que ensejaram a aprovação das respectivas contas tanto pelo Conselho Fiscal como pelo Conselho Deliberativo. Nós tivemos alguns pareceres, mas as notas fiscais que ensejaram aprovação das contas não estavam aqui no clube.”
De acordo com Conserino, ficou acordado que novos documentos serão entregues nos próximos dias.
“A diretoria jurídica fez questão de entrar em contato com cada conselheiro daquela época e conseguimos receber três pareceres. Ficou convencionado que no prazo de cinco dias vamos receber o restante, em dez dias vamos receber a documentação bancária que demonstra a retirada do dinheiro pelo funcionário.”
O promotor também solicitou acesso a registros digitais para verificar a integridade das informações apresentadas.
“Fizemos uma ata de realização da diligência, fizemos um adendo. Na ata originária consignou-se também que encaminhei um ofício ao diretor do TI para que ele disponibilizasse backup dos anos de 2018 a 2025 de todas as transações que ornamentaram a aprovação ou não de contas dos três últimos ex-presidentes. Essa diligência foi importante porque solicitamos por escrito essa demanda que será entregue ao Ministério Público, tão logo ela seja feita. Na ata, nós consignamos também a necessidade dessa prova tecnológica, até para averiguar a integridade da documentação entregue e possibilitar uma perícia feita pelos órgãos públicos.”
Clube fala em transparência total
O diretor jurídico Pedro Soares afirmou que a atual gestão colaborou integralmente com a diligência.
“Tudo o que está disponível nós deixamos à disposição do Ministério Público. Foi feita a visitação do local de guarda da documentação, foi feita uma explanação do funcionamento de todo esse mecanismo da época. Como está bem claro, a administração Osmar Stabile é de transparência total. É de apoio total ao Ministério Público para a apuração dos fatos“, pontuou o dirigente.
Questionados se a visita marca uma nova fase de cooperação entre clube e Ministério Público, o promotor destacou que o Corinthians deve se posicionar como vítima caso irregularidades sejam comprovadas, enquanto o diretor jurídico reforçou o compromisso da atual administração com a apuração dos fatos.
“Foi muito produtivo o contato. O objetivo é deixar claro que a vítima maior de tudo isso é o Corinthians. O Corinthians tem de entender que tem, lá na frente em caso de eventual condenação, possibilidade de reparação por dano moral, ressarcimento por dano material. O Corinthians tem de se colocar genuinamente na condição de vítima. Como vítima, ele está andando em consonância com o Ministério Público, que é o tutor e defensor da sociedade. No caso, quem saiu lesado, claramente, foi o Corinthians“, afirmou Cássio Conserino.
“Claro. Não só com o Ministério Público, mas com toda a nação corinthiana. O comprometimento da gestão Osmar Stabile é de transparência total, abertura desses questionamentos todos. Temos que resguardar a imagem do clube, fazer de forma consciente, preservar a marca Corinthians. Sempre buscamos isso e conversamos com o doutor Cássio. As investigações acontecem por parte das autoridades e nós que estamos representando o clube hoje temos que facilitar o máximo para que isso aconteça da forma mais célere possível“, ponderou Pedro Soares.
O diretor jurídico também comentou as dificuldades encontradas para reunir arquivos antigos do clube.
“Desde que assumi o cargo, essa foi a minha primeira missão. A ordem cronológica das coisas demonstra isso, já foi uma dificuldade grande reunir os documentos. Estavam bem desorganizados, tentamos facilitar ao máximo para ajudar o Ministério Público. Tentamos mostrar o maior princípio que rege o Direito, que é o princípio da boa-fé.”
“Entregamos o que encontramos, partiu do clube que aquilo que nós não localizamos, fizemos um boletim de ocorrência informando a falta desses documentos e informamos o Ministério Público. Um dos fatores principais que conduziu o doutor foi isso, buscando alternativas para buscar embasamento para a análise do Ministério Público.”
Estágio da investigação sobre a gestão Augusto Melo
O promotor também comentou o estágio da investigação envolvendo o ex-presidente Augusto Melo, destituído do cargo no ano passado após se tornar réu no caso VaideBet. Segundo Conserino, ainda não há elementos suficientes para avaliação.
“Em relação ao Augusto Melo a documentação que recebemos é bastante precária e não temos condição agora de avaliar o que será feito, de modo que não posso antecipar qualquer tipo de providência a ele por conta da falta de documentação que comprove alguma rusga no mandato.”
Próximos passos da investigação
Segundo Conserino, o inquérito segue em diferentes frentes, sendo que o caso mais avançado envolve adiantamentos em dinheiro e possíveis notas fiscais irregulares.
“Aguardar a manifestação do juiz em relação à denúncia do Duilio e tocar o adiantamento de valores em espécie e notas fiscais possivelmente frias. Esses dois tópicos correm paralelamente em dois ou três procedimentos. O mais avançado até agora é o adiantamento de valores em espécie na gestão do Duilio e do Andrés“, concluiu o promotor.
Nota oficial do clube
Após a visita, o Corinthians divulgou nota oficial confirmando o encontro com o promotor.
“O Sport Club Corinthians Paulista informa que o presidente Osmar Stabile recebeu, nesta quinta-feira (12), a visita institucional do promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), Cassio Conserino, em reunião realizada na sede administrativa do clube.
Também participaram do encontro o Diretor Jurídico do Corinthians, Pedro Soares, e o promotor de Justiça do Ministério Público Thiago Marim.
Durante a reunião, o Corinthians reiterou seu compromisso com a transparência e com a legalidade, reforçando que seguirá colaborando de forma plena com toda e qualquer investigação conduzida pelo Ministério Público, reafirmando seu respeito às instituições e às normas que regem o esporte e a administração pública.”
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